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CACAU MEDICINAL






Mulher de cabelos castanhos ondulados e soltos , com os olhos fechados, vestindo blusa branca e colar colorido, segurando um cacau de tom marrom avermelhado
Foto gentilmente cedida por Sunderta

O cacau medicinal chegou até mim através de um sonho onde eu corria por entre montanhas áridas que sugeriam o fim de algum mundo sem perspectivas para a humanidade. Mas ao correr por entre elas, minhas entranhas apontavam um caminho de possibilidade de regeneração e esperança ativa. Na manhã seguinte ao sonho me deparei em uma rede social com informações sobre o cacau medicinal e no mesmo momento senti algo magnético. Naquele período eu estava mal do coração e ao olhar para as imagens do cacau meu coração pulsava e manifestou-se em mim uma imensa sede por aprender tudo sobre essa medicina e experimentá-la. Realizei minha iniciação na arte do cacau sagrado, me tornando então cerimonialista, guardiã do cacau sagrado. Desde então venho cada vez mais vivenciando e me surpreendendo com as qualidades que essa ambrosia tem me proporcionado nas esferas física e espiritual da minha vida.



Sobre o cacau


Mão segurando na palma sementes escuras de cacau torrado, abaixo da mão muitas sementes escuras de cacau torrado
Foto gentilmente cedida por Sunderta Kaur

O cacau enquanto árvore tem origem amazônica e, de acordo com pesquisas, existe há cerca de 7 mil anos na bacia alta da Amazônia. Já seu uso social (consumo) foi iniciado há 5,5 mil anos. Pesquisas arqueológicas puderam datar seu uso social através de escavações realizadas em regiões da floresta peruana e equatoriana. Em 2012 na cidade Cajamarca, no norte Peru, pesquisadores encontraram uma construção arquitetônica em forma de espiral, denominada Huaca Montegrande, que estava soterrada sob uma igreja católica moderna abandonada, o que por sua vez é muito simbólico e nos diz muito sobre os processos de dominação coloniais que subjugaram, exterminaram e apagaram povos da América latina e suas memórias. Na escavação foram encontrados artefatos que ao serem submetidos a testes de carbono 14 identificaram uma bebida fermentada de theobroma cacao, nome científico do cacau, revelando que a realização de cerimônias com uso do cacau são pré-maia.


O cacau remota a tempos tão antigos que no Popol Vuh, gêneses do povo maia, o nome IX Cacau é citado em um canto de uma mulher que está passando por uma prova iniciática onde clama através de uma canção popular devocional “Ôh IX Cacau, minha Deusa, me ajude”. Esse é o único registro da Deusa IX Cacau nas escrituras sagradas maias, datando sua existência para um contexto social que antecede a civilização Maia e sugere possibilidades de apagamentos históricos, como outras tantas deusas já foram apagadas e fragmentadas pelo patriarcado.


Enquanto uma planta de poder milenar, como descrito, o cacau já foi e ainda é apropriado pelo sistema patriarcal e capitalista, já tendo sido motivo de grandes conflitos e perpetuação de relações opressoras. Em um contexto mundial, já houveram denúncias realizadas através de documentários, por exemplo, no documentário The Dark Side Of Chocolate, que demonstra que grandes multinacionais fabricantes de cacau chocolate, como as famosas Nestlé, Hershey, dentre outras que dominam o setor, utilizam de matéria-prima cujo sistema de produção inclui tráfico e escravização de crianças miseráveis de regiões da África, de onde provém a maior produção de cacau do mundo atualmente. O nome medicinal acompanha o cacau em virtude do seu processo alquímico, composto pelas várias etapas até chegar a sua forma e indicando os benefícios manifestados no corpo. Em sua forma mais pura é considerado um dos alimentos mais ricos nutricionalmente. A alquimia que o antecede compõe a colheita do fruto, manejo das sementes que são colocadas em ponchos de fermentação por 7 dias seguidos de mais 7 dias de secagem, perpassando pelo fogo e processo de moagem para finalmente se tornar uma barra (licor) de cacau. Além disso, para ser considerado medicinal é preciso também certificar se o processo de produção desse alimento que se torna um produto é justo e digno, o que inclui as condições de trabalho e remuneração das pessoas envolvidas nesse processo, justo para que possamos romper com sistemas exploratórios que utilizam dessa matéria prima. O uso do cacau medicinal no ato de uma cerimônia diz sobre estar na presença do sagrado - nosso próprio ser; diz sobre compartilhar e multiplicar em rodas - de frente para nossos espelhos internos e externos; de estarmos abertos para estimular e cultivar nossas sensibilidades corporais e espirituais através dessa bebida ambrosial. Um dos mitos que se relacionam com a história da deusa Ix Cacau diz que sempre que houver desconexão entre a humanidade e a natureza, IX Cacau vem da floresta para abrir o coração das pessoas e devolver o planeta a um estado de harmonia. Ao consagrarmos o cacau medicinal, podemos nos conectar com a sabedoria feminina de uma Deusa que percorre as florestas a milênios, com esse espírito vegetal, cuja inteligência de uma planta professora pode ser corporificada e expressa em nosso corpo ao nos relacionarmos intimamente com esse alimento sagrado. Cacau: um super alimento nutricional

Pires e xícara de cor amarela contendo chocolate quente, um delicado ramo com flores pequenas e rosas cruzando a circunferência da xícara. Esta xícara e este pires estão sobre uma mesa de madeira e ao fundo, na mesma mesa, tem dois livros de cor amarela e vermelha
Foto gentilmente cedida por Sunderta Kaur

O cacau compõe a categoria de alimentos adaptógenos, que são vegetais com propriedades medicinais que auxiliam o corpo a lidar com fatores estressores, sejam eles físicos, químicos ou biológicos como, por exemplo, a Maca Peruana, Ginseng, Raiz de Ouro e Goji Berry. É também rico em proteína e gordura de boa qualidade, minerais e vitaminas como cromo, ferro, vitamina C, enxofre, magnésio que geralmente é deficiente na alimentação contemporânea.


Uma outra qualidade do cacau é a capacidade de proporcionar energia ao nosso corpo de forma saudável. Assim como o café, o cacau também possui cafeína, mas proporciona energia ao corpo de forma diferente. A cafeína é uma vasoconstritora, que diminui o calibre dos nossos vasos sanguíneos, fazendo com que o coração precise fazer mais esforço para bombear o sangue em nossas veias mais “apertadas”, gerando um desgaste e tensão muscular. Já o cacau tem no corpo um efeito estimulante vasodilatador, proporcionado pela teobromina também presente neste fruto, permitindo que o oxigênio flua melhor em nosso corpo, capacitando maior energia às células e, consequentemente, a todo o corpo. Além disso, a teobromina é um alcalóide energético, estimulante mais suave, que não causa dependência como a cafeína. Tem função anti depressiva, regula o fluxo sanguíneo, trazendo bem estar físico.

O cacau também tem grande poder oxidante, pois possui flavonóides, compostos bioativos com propriedades antioxidantes, antivirais, antibacterianas e anti- inflamatórias. Dessa forma, o cacau atua em processos de oxidação em nosso corpo, ajudando a nos limpar. Inclusive, o cacau é mais rico em flavonóides do que o vinho e 3 vezes mais do que o chá verde. Além disso, é um inibidor natural de MAO, contendo Anandamida (uma endorfina canabionoide, substância conhecida como química da felicidade), que estimula a produção de seratonina (hormônio da felicidade) e dopamina, entre outras tantas qualidades. São inúmeros os benefícios do cacau, mas é preciso estabelecer um relacionamento íntimo de auto conhecimento nessa relação. Segue algumas dicas para um passo inicial:


- Para aproveitarmos de todos os benefícios do cacau, precisamos consumi-lo em barra. O caca em pó, por exemplo, mesmo que orgânico, devido ao seu processamento, perde grande parte dos nutrientes, tal como a própria manteiga de cacau.


- Também não é recomendável misturar cacau com proteínas animais, pois as mesmas anulam os efeitos nutrícios do fruto.


- Ao prepará-lo, é preciso tomar o cuidado de não super aquecê-lo pois vários de seus componentes são sensíveis a altas temperaturas.


Mas atenção: O cacau não é recomendado caso você tenha distúrbio cardíaco diagnosticado ou cirurgia no coração, esteja grávida ou lactante, tenha cálculo renal ou problemas nos rins, casos sérios de hipertensão, epilepsia ou consumo de medicamentos antidepressivos com IMAO em sua composição.


Por Sunderta Kaur/Brasil



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